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"A opção fundamental da Vida de um Cristão é acreditar no Amor de Deus" Bento XVI
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sábado, 7 de janeiro de 2012

Bento XVI, na missa da Epifania, com ordenações episcopais – “O coração de Deus está inquieto por nós"

Como os Magos, também os Bispos devem ser homens de coração inquieto e vigilante, com a coragem da humildade: Bento XVI, na Missa da Epifania, neste dia 6, na basílica de São Pedro, em que procedeu à ordenação episcopal de dois colaboradores da Cúria Romana nomeados Núncios Apostólicos: mons. Charles Brown, de Nova Iorque, e mons. Marek Solczynski, de Varsóvia, novos Núncios respectivamente na Irlanda e na Geórgia e Arménia.


O Papa começou por recordar que “a Epifania é uma festa da luz” - Cristo, que ilumina os homens e lhes dá o poder de se tornarem filhos de Deus. Esta celebração recorda a “a peregrinação da humanidade em direção a Jesus Cristo”. Primeiro tinham vindo os pastores, almas simples. Agora – com os Magos – vêm também os sapientes deste mundo. “Vêm grandes e pequenos, reis e servos, de todas as culturas e de todos os povos”. À frente, os Magos do Oriente, inaugurando o caminho dos povos para Cristo.


Mas que tipo de homens eram os Magos? – interrogou-se Bento XVI, acrescentando: “Podemos dizer que eram homens de ciência, mas não apenas no sentido de quererem saber muitas coisas; eles queriam algo mais. Queriam entender o que é que conta no facto de sermos homens”.


“Eram pessoas de coração inquieto, que não se satisfaziam com aparências ou com a rotina da vida. Eram homens à procura da promessa, à procura de Deus. Eram homens vigilantes, capazes de discernir os sinais de Deus, a sua linguagem subtil e insistente. Mas eram também homens corajosos e, ao mesmo tempo, humildes.”


“Podemos (prosseguiu o Papa) imaginar as zombarias que tiveram de suportar quando se puseram a caminho para ir ter com o Rei dos Judeus, enfrentando canseiras sem número. Mas, não consideravam decisivo o que se pensava ou dizia deles, mesmo pelas pessoas influentes e inteligentes. Para eles o que contava era a própria verdade, não a opinião dos homens”.


Partindo destas características dos Magos, Bento XVI apontou “alguns traços essenciais do ministério episcopal”.


“Também o Bispo deve ser um homem de coração inquieto, que não se satisfaz com as coisas rotineiras deste mundo, mas segue a inquietação do coração que o impele interiormente a aproximar-se sempre mais de Deus, a procurar o seu Rosto, a conhecê-Lo cada vez melhor, para poder amá-Lo cada vez mais. Também o Bispo deve ser um homem de coração vigilante que percebe a linguagem subtil de Deus e sabe discernir a verdade da aparência. Também o Bispo deve estar repleto da coragem da humildade, que não se interessa do que a opinião dominante diz dele, mas por critério toma a medida da verdade de Deus, comprometendo-se com ela «opportune – importune». Deve ser capaz de ir à frente indicando o caminho.”


Evocando as perguntas que a liturgia da Ordenação episcopal dirige aos consagrados, o Papa pôs em destaque algumas delas, todas elas introduzidas pela palavra “Vultis?” (“Quereis?”): pregar o Evangelho de Cristo, conservar, dirigir, mostrar-se misericordioso para com os pobres e rezar incessantemente. Por outras palavras:
“O anúncio do Evangelho de Jesus Cristo, guardar o depósito sagrado da nossa fé, ir à frente e guiar, a misericórdia e a caridade para com os necessitados e os pobres nas quais se reflecte o amor misericordioso de Deus para connosco e, finalmente, a oração contínua são características fundamentais do ministério episcopal.”


A oração contínua – explicou - significa nunca perder o contacto com Deus, deixar-se tocar sempre por Ele no íntimo do nosso coração e deste modo sermos permeados pela sua luz. Só quem conhece a Deus pessoalmente é que pode guiar os outros para Deus. E só quem guia os homens para Deus é que os guia pela estrada da vida.


Relativamente ao “coração inquieto”, de sabor agostiniano, Bento XVI observou que se trata de um coração que não se contenta com nada menos do que Deus e que, precisamente por isso, se torna um coração que ama. Neste contexto, de modo muito sugestivo, fez notar que também o coração de Deus está inquieto, por nossa causa. Esta divina inquietação bem caracteriza uma atitude fundamental do Bispo:
“Também o coração de Deus vive inquieto relativamente ao homem. Deus espera-nos. Anda à nossa procura. Também Ele não descansa enquanto não nos tiver encontrado. O coração de Deus vive inquieto, e foi por isso que se pôs a caminho até junto de nós – até Belém, até ao Calvário, de Jerusalém até à Galileia e aos confins do mundo”.


“Deus… anda à procura de pessoas que se deixem contagiar por esta sua inquietação, pela sua paixão por nós; pessoas que vivem a busca que habita no seu coração e, ao mesmo tempo, se deixam tocar no coração pela busca de Deus a nosso respeito”.


“Queridos amigos, foi esta a missão dos Apóstolos: acolher a inquietação de Deus pelo homem e levar o próprio Deus aos homens. E, seguindo os passos dos Apóstolos, esta é a vossa missão: deixai-vos tocar pela inquietação de Deus, a fim de que o anseio de Deus pelo homem possa ser satisfeito.”


Leia o texto integral da homilia do Santo Padre e vídeos com locução em espanhol e inglês clicando abaixo. Obrigado!


Queridos irmãos e irmãs,


A Epifania é uma festa da luz. «Ergue-te, Jerusalém, e sê iluminada, que a tua luz desponta e a glória do Senhor está sobre ti» (Is 60, 1). Com estas palavras do profeta Isaías, a Igreja descreve o conteúdo da festa. Sim, veio ao mundo Aquele que é a Luz verdadeira, Aquele que faz com que os homens sejam luz. Dá-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus (cf. Jo 1, 9.12). Para a liturgia, o caminho dos Magos do Oriente é só o início de uma grande procissão que continua ao longo da história inteira. Com estes homens, tem início a peregrinação da humanidade rumo a Jesus Cristo: rumo àquele Deus que nasceu num estábulo, que morreu na cruz e, Ressuscitado, permanece connosco todos os dias até ao fim do mundo (cf. Mt 28, 20). A Igreja lê a narração do Evangelho de Mateus juntamente com a visão do profeta Isaías, que escutámos na primeira leitura: o caminho destes homens é só o início. Antes, tinham vindo os pastores – almas simples que habitavam mais perto de Deus feito menino, podendo mais facilmente «ir até lá» (cf. Lc 2, 15) ter com Ele e reconhecê-Lo como Senhor. Mas agora vêm também os sábios deste mundo. Vêm grandes e pequenos, reis e servos, homens de todas as culturas e de todos os povos. Os homens do Oriente são os primeiros, seguidos de muitos outros ao longo dos séculos. Depois da grande visão de Isaías, a leitura tirada da Carta aos Efésios exprime, de modo muito sóbrio e simples, a mesma ideia: os gentios partilham da mesma herança (cf. 3, 6). Eis como o formulara o Salmo 2: «Eu te darei as nações por herança, e os confins da terra para teu domínio» (v. 8).


Os Magos do Oriente vão à frente. Inauguram o caminho dos povos para Cristo. Durante esta Missa, vou conferir a Ordenação Episcopal a dois sacerdotes, consagrá-los-ei Pastores do povo de Deus. Segundo palavras de Jesus, caminhar à frente do rebanho faz parte da função do Pastor (cf. Jo 10, 4). Por isso naqueles personagens, que foram os primeiros pagãos a encontrar o caminho para Cristo, talvez possamos – não obstante todas as diferenças nas respectivas vocações e tarefas – procurar indicações para a missão dos Bispos. Que tipo de homens eram os Magos? Os peritos dizem-nos que pertenciam à grande tradição astronómica que se fora desenvolvendo na Mesopotâmia no decorrer dos séculos, e era então florescente. Mas esta informação, por si só, não é suficiente. Provavelmente haveria muitos astrónomos na antiga Babilónia, mas poucos, apenas estes Magos, se puseram a caminho e seguiram a estrela que tinham reconhecido como sendo a estrela da promessa, ou seja, a que indicava o caminho para o verdadeiro Rei e Salvador. Podemos dizer que eram homens de ciência, mas não apenas no sentido de quererem saber muitas coisas; eles queriam algo mais. Queriam entender o que é que conta no facto de sermos homens. Provavelmente ouviram falar da profecia de Balaão, um profeta pagão: «Uma estrela sai de Jacob, e um cetro se levanta de Israel» (Nm 24, 17). Eles aprofundaram esta promessa. Eram pessoas de coração inquieto, que não se satisfaziam com aparências ou com a rotina da vida. Eram homens à procura da promessa, à procura de Deus. Eram homens vigilantes, capazes de discernir os sinais de Deus, a sua linguagem subtil e insistente. Mas eram também homens corajosos e, ao mesmo tempo, humildes: podemos imaginar as zombarias que tiveram de suportar quando se puseram a caminho para ir ter com o Rei dos Judeus, enfrentando canseiras sem número. Mas, não consideravam decisivo o que se pensava ou dizia deles, mesmo pelas pessoas influentes e inteligentes. Para eles o que contava era a própria verdade, não a opinião dos homens. Por isso, enfrentaram as privações e o cansaço dum caminho longo e incerto. Foi a sua coragem humilde que lhes permitiu prostrar-se diante dum menino filho de gente pobre e reconhecer n’Ele o Rei prometido, cuja busca e reconhecimento fora o objectivo do seu caminho exterior e interior.


Queridos amigos, em tudo isto é possível ver alguns traços essenciais do ministério episcopal. Também o Bispo deve ser um homem de coração inquieto, que não se satisfaz com as coisas rotineiras deste mundo, mas segue a inquietação do coração que o impele interiormente a aproximar-se sempre mais de Deus, a procurar o seu Rosto, a conhecê-Lo cada vez melhor, para poder amá-Lo sempre mais. Também o Bispo deve ser um homem de coração vigilante que percebe a linguagem subtil de Deus e sabe discernir a verdade da aparência. Também o Bispo deve estar repleto da coragem da humildade, que não se interessa do que a opinião dominante diz dele, mas por critério toma a medida da verdade de Deus, comprometendo-se com ela «opportune – importune». Deve ser capaz de ir à frente indicando o caminho. Deve ir à frente seguindo Aquele que a todos nos precedeu, porque é o verdadeiro Pastor, a verdadeira estrela da promessa: Jesus Cristo. E deve ter a humildade de prostrar-se diante daquele Deus que Se tornou tão concreto e tão simples que contradiz o nosso orgulho insensato, que não quer ver Deus assim perto e pequenino. Deve viver a adoração do Filho de Deus feito homem, aquela adoração que lhe indica sem cessar o caminho.


A liturgia da Ordenação Episcopal exprime o essencial deste ministério em oito perguntas dirigidas aos Ordenandos, que começam sempre com a palavra: «Vultis? – Quereis?». As perguntas orientam a vontade e indicam-lhe o caminho a tomar. Gostaria de mencionar aqui, brevemente, algumas das palavras-chave desta orientação, nas quais se concretiza aquilo que há pouco reflectimos a partir dos Magos que aparecem na festa de hoje. A missão dos Bispos é «praedicare Evangelium Christi», «custodire», «dirigere», «pauperibus se misericordes praebere», «indesinenter orare». O anúncio do Evangelho de Jesus Cristo, guardar o depósito sagrado da nossa fé, ir à frente e guiar, a misericórdia e a caridade para com os necessitados e os pobres nas quais se reflecte o amor misericordioso de Deus para connosco e, finalmente, a oração contínua são características fundamentais do ministério episcopal. A oração contínua significa nunca perder o contacto com Deus, deixar-se tocar sempre por Ele no íntimo do nosso coração e deste modo sermos permeados pela sua luz. Só quem conhece a Deus pessoalmente é que pode guiar os outros para Deus. E só quem guia os homens para Deus é que os guia pela estrada da vida.


O coração inquieto, de que falámos inspirando-nos em Santo Agostinho, é o coração que, em última análise, não se satisfaz com nada menos do que Deus e é, precisamente assim, que se torna um coração que ama. O nosso coração vive inquieto relativamente a Deus, e não pode ser doutro modo, embora hoje se procure, com «narcóticos» muito eficazes, libertar o homem desta inquietação. Mas não somos só nós, seres humanos, que vivemos inquietos relativamente a Deus. Também o coração de Deus vive inquieto relativamente ao homem. Deus espera-nos. Anda à nossa procura. Também Ele não descansa enquanto não nos tiver encontrado. O coração de Deus vive inquieto, e foi por isso que se pôs a caminho até junto de nós – até Belém, até ao Calvário, de Jerusalém até à Galileia e aos confins do mundo. Deus vive inquieto connosco, anda à procura de pessoas que se deixem contagiar por esta sua inquietação, pela sua paixão por nós; pessoas que vivem a busca que habita no seu coração e, ao mesmo tempo, se deixam tocar no coração pela busca de Deus a nosso respeito. Queridos amigos, foi esta a missão dos Apóstolos: acolher a inquietação de Deus pelo homem e levar o próprio Deus aos homens. E, seguindo os passos dos Apóstolos, esta é a vossa missão: deixai-vos tocar pela inquietação de Deus, a fim de que o anseio de Deus pelo homem possa ser satisfeito.


Os Magos seguiram a estrela. Através da linguagem da criação, encontraram o Deus da história. É certo que a linguagem da criação, por si só, não é suficiente. Apenas a Palavra de Deus, que encontramos na Sagrada Escritura, podia indicar-lhes definitivamente o caminho. Criação e Escritura, razão e fé devem dar-se as mãos para nos conduzirem ao Deus vivo. Muito se discutiu sobre o tipo de estrela que guiou os Magos. Pensa-se numa conjunção de planetas, numa Supernova, ou seja, uma daquelas estrelas inicialmente muito débeis que, na sequência duma explosão interna, irradia por algum tempo um imenso esplendor, num cometa, etc. Deixemos que os cientistas continuem esta discussão. A grande estrela, a verdadeira Supernova que nos guia é o próprio Cristo. Ele é, por assim dizer, a explosão do amor de Deus, que faz brilhar sobre o mundo o grande fulgor do seu coração. E podemos acrescentar: tanto os Magos do Oriente, mencionados no Evangelho de hoje, como os Santos em geral pouco a pouco tornaram-se eles mesmos constelações de Deus, que nos indicam o caminho. Em todas estas pessoas, o contacto com a Palavra de Deus provocou, por assim dizer, uma explosão de luz, através da qual o esplendor de Deus ilumina este nosso mundo e nos indica o caminho. Os Santos são estrelas de Deus, pelas quais nos deixamos guiar para Aquele por quem o nosso ser anseia. Queridos amigos, vós seguistes a estrela que é Jesus Cristo, quando dissestes o vosso «sim» ao sacerdócio e ao ministério episcopal. E certamente brilharam para vós também estrelas menores, que vos ajudaram a não errar o caminho. Na Ladainha dos Santos, invocamos todas estas estrelas de Deus, a fim de que brilhem sempre de novo para vós e vos indiquem o caminho. Com a Ordenação Episcopal, vós mesmos sois chamados a ser estrelas de Deus para os homens, guiando-os pelo caminho que leva à verdadeira Luz: Cristo. Invoquemos, pois, agora todos os Santos, para que possais corresponder sempre a esta vossa missão mostrando aos homens a luz de Deus. Amen.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Homilia do Sr. D. Jacinto Botelho no Dia Mundial da Paz



Homilia pronunciada no dia 01 de Janeiro de 2012 na Igreja Catedral de Lamego
Iniciámos às 0 horas de hoje o novo ano de 2012. Apesar das dificuldades que se vivem, muitos terão passado esse momento no meio da alegria e diversão esfusiantes em locais preparados para isso, no convívio de familiares e amigos, ou no aconchego da própria casa; alguns terão aproveitado essa ocasião, para no recolhimento da oração, pedirem ao Senhor a Sua Bênção e protecção para o ano que começa.
Gostaria de ser nesta homilia uma forte ressonância ao convite que Sua Santidade Bento XVI, nos dirigiu para este 45º Dia Mundial da Paz, recordando o Salmo 130, o homem de fé aguarda pelo Senhor «mais que a sentinela pela aurora»: “Convido-vos a olhar o ano de 2012 com esta atitude confiante.”
O Santo Padre não é utópico, um sonhador irrealista; ele conhece melhor que ninguém a dura realidade que tantos experimentam e afirma-o sem rodeios: “É verdade que, no ano que termina, cresceu o sentido da frustração por causa da crise que aflige a sociedade, o mundo do trabalho e a economia; uma crise cujas raízes são primariamente culturais e antropológicas. Quase parece que um manto de escuridão teria descido sobre o nosso tempo, impedindo de ver com clareza a luz do dia. Mas nesta escuridão, o coração do homem não deixa de aguardar pela aurora de que fala o salmista.”
É neste contexto que queremos alimentar a nossa esperança.
Celebramos liturgicamente no primeiro dia do ano a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Atrevo-me a parafrasear as palavras de Bento XVI na mensagem Urbi et Orbi, no Dia de Natal: “ Vinde salvar-nos, Senhor nosso Deus. Vinde salvar-nos! Tal é o grito do homem de todo e qualquer tempo que, sozinho, se sente incapaz de superar dificuldades e perigos. Precisa de colocar a sua mão numa mão maior e mais forte, uma mão do Alto que se estenda para ele. Essa mão é Cristo, nascido em Belém da Virgem Maria.” Eu diria que essa mão é também a presença sempre carinhosa e solícita de Nossa Senhora, a quem Jesus nos entregou no alto do Calvário. Fixemos n’Ela a nossa atenção. Ela é a mulher referida no texto de S. Paulo aos Gálatas, por meio de quem nos chega a Graça insigne da nossa filiação divina, que ultrapassa infinitamente a Bênção que os sacerdotes de Israel, por ordem de Deus a Moisés, imploravam para o povo, no fim das grandes solenidades. Ela é modelo, de modo eminente e singular, de cada cristão, a discípula perfeitíssima, em cuja escola precisamos de nos matricular para aprendemos d’Ela, a «acolher na fé e na oração, a salvação que Deus quer comunicar a quantos confiam no seu amor misericordioso». Também precisou da Redenção e foi a primeira redimida, desde a Sua Conceição Imaculada. “É a primeira abençoada e é Aquela que traz a Bênção”. Perante o que ouvia aos pastores, ficou abismada e silenciosa, guardando todas as palavras e meditando-as em seu coração. Ela é a estrela iluminadora da nova evangelização, e ao mesmo tempo garantia da sua eficácia; a certeza de que somente a Boa Nova, guardada e meditada no coração, transformará cada um e a sociedade desorientada em que nos encontramos. “O tecido da humanidade, rasgado, esfarrapado, por tantas injustiças, maldades e violências”, como rezava ontem Bento XVI, na oração de Vésperas, foi refeito, porque a Mãe de Deus e nossa Mãe nos deu “a novidade, alegre e libertadora, de Cristo Salvador, que no mistério da Sua Encarnação e do Seu nascimento, nos permite contemplar a bondade e a ternura de Deus. […] Ele veio à terra, entrou na nossa história, para renovar radicalmente a humanidade e libertá-la do pecado e da morte, para elevar o homem à dignidade de filho de Deus”, como nos recordou a segunda leitura proclamada.
Mas o primeiro dia do ano é desde 1968 por determinação de Paulo VI, o Dia Mundial da Paz que em 2012 - o 45º - Bento XVI subordina ao tema Educar os jovens para a justiça e a paz, “convencido – são palavras do Santo Padre – de que eles podem, com o seu entusiasmo e idealismo, oferecer uma esperança ao mundo”. Certamente recordando ainda a inesquecível vivência da última Jornada Mundial de Juventude em Madrid, Sua Santidade que antes, ao referir o manto de escuridão descido sobre o tempo, afirmara que apesar de tudo, “o coração do homem não cessa de aguardar pela aurora de que fala o salmista, sublinha e destaca que “esta expectativa mostra-se particularmente viva e visível nos jovens”, justificando o motivo da escolha do tema: “É por isso que o meu pensamento se volta para eles, considerando o contributo que podem e devem oferecer à sociedade.
Esta educação, “a aventura mais fascinante e difícil da vida”, encontra na família, «célula originária da sociedade», a “primeira escola onde se educa para a justiça e para a paz”, porque “é na família que os filhos aprendem os valores humanos e cristãos que permitem uma convivência construtiva e pacífica; é na família que aprendem a solidariedade entre as gerações, o respeito palas regras, o perdão e o acolhimento do outro”. A mais rica e eficaz das pedagogias é o testemunho dado pelos pais, a quem o sacramento do matrimónio conferiu este ministério de educadores do qual não podem abdicar, e dá a Graça necessária para o desempenharem sem desânimo.
Explicitando a obrigação de educar para a justiça, alerta Sua Santidade Bento XVI para a mentalidade corrente que nos envolve e tantas vezes nos motiva, “onde o valor da pessoa, da sua dignidade, e dos seus direitos, não obstante as proclamações de intentos, está seriamente ameaçada pela tendência generalizada de recorrer exclusivamente aos critérios da utilidade, do lucro e do ter”. Daí a urgência de “não separar das suas raízes transcendentes, o conceito de justiça”, porque “a justiça não é uma simples convenção humana” determinada pela lei positiva, mas pela identidade profunda do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus. O Santo Padre insiste na realidade que não podemos ignorar, de que “certas correntes da cultura moderna, apoiadas em princípios económicos racionalistas e individualistas, alienaram das suas raízes transcendentes o conceito de justiça, separando-o da caridade e da solidariedade”, apresentando o pensamento de modo pejorativo, com o diminutivo caridadezinha. “A «cidade do homem» - ensina Bento XVI - não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. A caridade manifesta sempre, mesmo nas relações humanas, o amor de Deus; dá valor teologal e salvífico a todo o empenho de justiça no mundo”.
A paz, para cuja educação o Santo Padre apela na mensagem a que venho a fazer referência, “é fruto da justiça e efeito da caridade, é antes de mais nada dom de Deus; mas não é apenas dom a ser recebido, mas obra a ser construída”, como afirma, e por isso - continua Bento XVI – “para sermos verdadeiros artífices da paz, devemos educar-nos para a compaixão, a solidariedade, a colaboração, a fraternidade, ser activos dentro da comunidade e solícitos em despertar as consciências para as questões nacionais e internacionais e para a importância de procurar adequadas modalidades de redistribuição da riqueza, de promoção do crescimento, de cooperação para o desenvolvimento e de resolução dos conflitos.”
O esforço pelo cumprimento, perseverante e paciente, deste oportuníssimo programa de comportamento, permitir-nos-á olhar 2012 com uma atitude confiante. Um belo propósito que Santa Maria, Mãe de Deus, nos ajudará a cumprir, para este novo ano que desejo para todos vós, pleno de Graça, de Justiça e de Paz.
+ D. Jacinto Tomaz de Carvalho Botelho, Administrador Apostólico de Lamego

Reis Magos

Os Três Reis Magos ou simplesmente "Os Magos", a que a tradição deu os nomes de Melchior, Baltazar e Gaspar, são personagens da narrativa cristã que visitaram Jesus após o seu nascimento (Evangelho de Mateus). A Escritura diz "uns magos", que não seriam, portanto, reis nem necessariamente três mas, talvez, sacerdotes da religião zoroástrica da Pérsia ou conselheiros. Como não diz quantos eram, diz-se três pela quantia dos presentes oferecidos.
Talvez fossem astrólogos ou astrónomos, pois, segundo consta, viram uma estrela e foram, por isso, até a região onde nascera Jesus, dito o Cristo. Assim os magos, sabendo que se tratava do nascimento de um rei, foram ao palácio do rei Herodes em Jerusalém. Perguntaram-lhe sobre a criança mas ele disse nada saber. No entanto, Herodes alarmou-se e sentiu-se ameaçado e pediu aos magos que, se encontrassem o menino, o informassem, pois iria adorá-lo também, embora suas intenções fossem a de matá-lo.


A estrela, conta o evangelho, precedia-os e parou sobre o local onde estava o menino Jesus. "E vendo a estrela, alegraram-se eles com grande e intenso júbilo" (Mt 2, 10). Os Magos ofereceram três presentes ao menino Jesus, ouro, incenso e mirra, cujo significado e simbolismo espiritual é, juntamente com a própria visitação dos magos, um resumo do evangelho e da fé cristã, embora existam outras especulações respeito do significado das dádivas dadas por eles: o ouro pode representar a realeza (eles procuravam o "Rei dos Judeus"); o incenso pode representar a fé, pois o incenso é usado nos templos para simbolizar a oração que chega a Deus; a mirra, resina antiséptica usada em embalsamamentos desde o Egipto antigo, remete-nos para o género da morte de Jesus, o martírio, sendo que um composto de mirra e aloés foi usado no embalsamamento de Jesus (Jo 19, 39 e 40).


"Sendo prevenidos em sonhos a não voltarem à presença de Herodes, regressaram por outro caminho a sua terra" (Mt 2, 12). Nada mais a Escritura diz sobre essa história cheia de poesia, não havendo também quaisquer outros documentos históricos sobre eles.


A melhor descrição dos reis magos foi feita por São Beda, o Venerável (673-735), que no seu tratado “Excerpta et Colletanea” assim relata: “Melchior era velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas, tendo partido de Ur, terra dos Caldeus. Gaspar era moço, de vinte anos, robusto e partira de uma distante região montanhosa, perto do Mar Cáspio. E Baltazar era mouro, de barba cerrada e com quarenta anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia Feliz”.


Quanto a seus nomes, Gaspar significa “Aquele que vai inspecionar”, Melchior quer dizer: “Meu Rei é Luz”, e Baltazar se traduz por “Deus manifesta o Rei”.


Como se pretendia dizer que simbolizavam os reis de todo o mundo, representariam as três raças humanas existentes, em idades diferentes. Segundo a mesma tradição, Melchior entregou-Lhe ouro em reconhecimento da realeza; Gaspar, incenso em reconhecimento da divindade; e Baltazar, mirra em reconhecimento da humanidade.


A exegese vê na chegada dos reis magos o cumprimento a profecia contida no livro dos Salmos (Sl 71, 11): “Os reis de toda a terra hão de adorá-Lo”.


Devido ao tempo passado até que os Magos chegassem ao local onde estava o menino, por causa da distância percorrida e da visita a Herodes, a tradição atribuiu à visitação dos Magos o dia 6 de Janeiro. Algumas Conferências Episcopais decidiram, contudo, celebrar a festa da Epifania no primeiro domingo de Janeiro (quando não coincide com o dia 1).


Devemos aos Magos a troca de presentes no Natal. Dos presentes dos Magos surgiu essa tradição em celebração do nascimento de Jesus. Em diversos países a principal troca de presentes é feita não no Natal, mas no dia 6 de Janeiro, e os pais muitas vezes se disfarçam de reis magos.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Mensagem do Papa Bento XVI para o Dia Mundial da Paz 2012




Mensagem do Papa Bento XVI
para o Dia
Mundial da Paz - 1º de janeiro de 2012


Educar os jovens para a justiça e a paz

1. Início de um novo ano, dom de Deus à humanidade, induz-me a desejar a todos, com grande confi ança e estima, de modo especial que este tempo, que se abre diante de nós, fi que marcado concretamente pela justiça e a paz.

Com qual atitude devemos olhar para o novo ano? No salmo 130, encontramos uma imagem muito bela. O salmista diz que o homem de fé aguarda pelo Senhor "mais do que a sentinela pela aurora" (v. 6), aguarda por Ele com firme esperança, porque sabe que trará luz, misericórdia, salvação. Esta expectativa nasce da experiência do povo eleito, que reconhece ter sido educado por Deus a olhar o mundo na sua verdade sem se deixar abater pelas tribulações.

Convido-vos a olhar o ano de 2012 com esta atitude confiante. É verdade que, no ano que termina, cresceu o sentido de frustração por causa da crise que aflige a sociedade, o mundo do trabalho e a economia; uma crise cujas raízes são primariamente culturais e antropológicas. Quase parece que um manto de escuridão teria descido sobre o nosso tempo, impedindo de ver com clareza a luz do dia.
Mas, nesta escuridão, o coração do homem não cessa de aguardar pela aurora de que fala o salmista.

Esta expectativa mostra-se particularmente viva e visível nos jovens; e é por isso que o meu pensamento se volta para eles, considerando o contributo que podem e devem oferecer à sociedade. Queria, pois, revestir a Mensagem para o XLV Dia Mundial da Paz duma perspectiva educativa: "Educar os jovens para a justiça e a paz", convencido de que eles podem, com o seu entusiasmo e idealismo, oferecer uma nova esperança ao mundo.

A minha Mensagem dirige-se também aos pais, às famílias, a todas as componentes educativas, formadoras, bem como aos responsáveis nos diversos âmbitos da vida religiosa, social, política, econômica, cultural e mediática. Prestar atenção ao mundo juvenil, saber escutá-lo e valorizá-lo para a construção dum futuro de justiça e de paz não é só uma oportunidade mas um dever primário de toda a sociedade.
Trata-se de comunicar aos jovens o apreço pelo valor positivo da vida, suscitando neles o desejo de consumá-la ao serviço do Bem. Esta é uma tarefa, na qual todos nós estamos, pessoalmente, comprometidos.

As preocupações manifestadas por muitos jovens nestes últimos tempos, em várias regiões do mundo, exprimem o desejo de poder olhar para o futuro com fundada esperança. Na hora atual, muitos são os aspectos que os trazem apreensivos: o desejo de receber uma formação que os prepare de maneira mais profunda para enfrentar a realidade, a dificuldade de formar uma família e encontrar um emprego estável, a capacidade efectiva de intervir no mundo da política, da cultura e da economia contribuindo para a construção duma sociedade de rosto mais humano e solidário.

É importante que estes fermentos e o idealismo que encerram encontrem a devida atenção em todas as componentes da sociedade. A Igreja olha para os jovens com esperança, tem confiança neles e encoraja-os a procurarem a verdade, a defenderem o bem comum, a possuírem perspectivas abertas sobre o mundo e olhos capazes de ver "coisas novas" (Is 42, 9; 48, 6).

Os responsáveis da educação

2. A educação é a aventura mais fascinante e difícil da vida. Educar – na sua etimologia latina educere– significa conduzir para fora de si mesmo ao encontro da realidade, rumo a uma plenitude que faz crescer a pessoa. Este processo alimenta-se do encontro de duas liberdades: a do adulto e a do jovem. Isto exige a responsabilidade do discípulo, que deve estar disponível para se deixar guiar no conhecimento da realidade, e a do educador, que deve estar disposto a dar-se a si mesmo. Mas, para isso, não bastam meros dispensadores de regras e informações; são necessárias testemunhas autênticas, ou seja, testemunhas que saibam ver mais longe do que os outros, porque a sua vida abraça espaços mais amplos. A testemunha é alguém que vive, primeiro, o caminho que propõe.

E quais são os lugares onde amadurece uma verdadeira educação para a paz e a justiça? Antes de mais nada, a família, já que os pais são os primeiros educadores. A família é célula originária da sociedade. « É na família que os filhos aprendem os valores humanos e cristãos que permitem uma convivência construtiva e pacífica. É na família que aprendem a solidariedade entre as gerações, o respeito pelas regras, o perdão e o acolhimento do outro ». Esta é a primeira escola, onde se educa para a justiça e a paz.

Vivemos num mundo em que a família e até a própria vida se vêem constantemente ameaçadas e, não raro, destroçadas. Condições de trabalho frequentemente pouco compatíveis com as responsabilidades familiares, preocupações com o futuro, ritmos frenéticos de vida, emigração à procura dum adequado sustentamento se não mesmo da pura sobrevivência, acabam por tornar difícil a possibilidade de assegurar aos filhos um dos bens mais preciosos: a presença dos pais; uma presença, que permita compartilhar de forma cada vez mais profunda o caminho para se poder transmitir a experiência e as certezas adquiridas com os anos – o que só se torna viável com o tempo passado juntos. Queria aqui dizer aos pais para não desanimarem! Com o exemplo da sua vida, induzam os filhos a colocar a esperança antes de tudo em Deus, o único de quem surgem justiça e paz autênticas.

Quero dirigir-me também aos responsáveis das instituições com tarefas educativas: Velem, com grande sentido de responsabilidade, por que seja respeitada e valorizada em todas as circunstâncias a dignidade de cada pessoa. Tenham a peito que cada jovem possa descobrir a sua própria vocação, acompanhando-o para fazer frutificar os dons que o Senhor lhe concedeu. Assegurem às famílias que os seus filhos não terão um caminho formativo em contraste com a sua consciência e os seus princípios religiosos.

Possa cada ambiente educativo ser lugar de abertura ao transcendente e aos outros; lugar de diálogo, coesão e escuta, onde o jovem se sinta valorizado nas suas capacidades e riquezas interiores e aprenda a apreciar os irmãos. Possa ensinar a saborear a alegria que deriva de viver dia após dia a caridade e a compaixão para com o próximo e de participar ativamente na construção duma sociedade mais humana e fraterna.

Dirijo-me, depois, aos responsáveis políticos, pedindo-lhes que ajudem concretamente as famílias e as instituições educativas a exercerem o seu direito--dever de educar. Não deve jamais faltar um adequado apoio à maternidade e à paternidade. Atuem de modo que a ninguém seja negado o acesso à instrução e que as famílias possam escolher livremente as estruturas educativas consideradas mais idôneas para o bem dos seus filhos. Esforcem-se por favorecer a reunificação das famílias que estão separadas devido à necessidade de encontrar meios de subsistência.

Proporcionem aos jovens uma imagem transparente da política, como verdadeiro serviço para o bem de todos. Não posso deixar de fazer apelo ainda ao mundo dos media para que prestem a sua contribuição educativa. Na sociedade atual, os meios de comunicação de massa têm uma função particular: não só informam, mas também formam o espírito dos seus destinatários e, consequentemente, podem concorrer notavelmente para a educação dos jovens. É importante ter presente a ligação estreitíssima que existe entre educação e comunicação: de fato, a educação realiza-se por meio da comunicação, que influi positiva ou negativamente na formação da pessoa.
Também os jovens devem ter a coragem de começar, eles mesmos, a viver aquilo que pedem a quantos os rodeiam. Que tenham a força de fazer um uso bom e consciente da liberdade, pois cabe-lhes em tudo isto uma grande responsabilidade: são responsáveis pela sua própria educação e formação para a justiça e a paz.

Educar para a verdade e a liberdade

3. Santo Agostinho perguntava-se: "Quid enim fortius desiderat anima quam veritatem – que deseja o homem mais intensamente do que a verdade?". O rosto humano duma sociedade depende muito da contribuição da educação para manter viva esta questão inevitável. De fato, a educação diz respeito à formação integral da pessoa, incluindo a dimensão moral e espiritual do seu ser, tendo em vista o seu fim último e o bem da sociedade a que pertence.

Por isso, a fim de educar para a verdade, é preciso antes de mais nada saber que é a pessoa humana, conhecer a sua natureza. Olhando a realidade que o rodeava, o salmista pôs-se a pensar: « Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a lua e as estrelas que Vós criastes: que é o homem para Vos lembrardes dele, o fi lho do homem para com ele Vos preocupardes? » (Sal 8, 4-5). Esta é a pergunta fundamental que nos devemos colocar: Que é o homem?

O homem é um ser que traz no coração uma sede de infinito, uma sede de verdade – não uma verdade parcial, mas capaz de explicar o sentido da vida –, porque foi criado à imagem e semelhança de Deus. Assim, o fato de reconhecer com gratidão a vida como dom inestimável leva a descobrir a dignidade profunda e a inviolabilidade própria de cada pessoa.

Por isso, a primeira educação consiste em aprender a reconhecer no homem a imagem do Criador e, consequentemente, a ter um profundo respeito por cada ser humano e ajudar os outros a realizarem uma vida conforme a esta sublime dignidade. É preciso não esquecer jamais que « o autêntico desenvolvimento do homem diz respeito unitariamente à totalidade da pessoa em todas as suas dimensões », incluindo a transcendente, e que não se pode sacrificar a pessoa para alcançar um bem particular, seja ele econômico ou social, individual ou coletivo.

Só na relação com Deus é que o homem compreende o significado da sua liberdade, sendo tarefa da educação formar para a liberdade autêntica. Esta não é a ausência de vínculos, nem o império do livre arbítrio; não é o absolutismo do eu. Quando o homem se crê um ser absoluto, que não depende de nada nem de ninguém e pode fazer tudo o que lhe apetece, acaba por contradizer a verdade do seu ser e perder a sua liberdade. De fato, o homem é precisamente o contrário: um ser relacional, que vive em relação com os outros e sobretudo com Deus. A liberdade autêntica não pode jamais ser alcançada, afastando-se d’Ele.

A liberdade é um valor precioso, mas delicado: pode ser mal entendida e usada mal. « Hoje um obstáculo particularmente insidioso à ação educativa é constituído pela presença maciça, na nossa sociedade e cultura, daquele relativismo que, nada reconhecendo como definitivo, deixa como última medida somente o próprio eu com os seus desejos e, sob a aparência da liberdade, torna-se para cada pessoa uma prisão, porque separa uns dos outros, reduzindo cada um a permanecer fechado dentro do próprio “eu”.

Dentro de um horizonte relativista como este, não é possível, portanto, uma verdadeira educação: sem a luz da verdade, mais cedo ou mais tarde cada pessoa está, de fato, condenada a duvidar da bondade da sua própria vida e das relações que a constituem, da validez do seu compromisso para construir com os outros algo em comum ». Por conseguinte o homem, para exercer a sua liberdade, deve superar o horizonte relativista e conhecer a verdade sobre si próprio e a verdade acerca do que é bem e do que é mal.

No íntimo da consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer e cuja voz o chama a amar e fazer o bem e a fugir do mal, a assumir a responsabilidade do bem cumprido e do mal praticado. Por isso o exercício da liberdade está intimamente ligado com a lei moral natural, que tem caráter universal, exprime a dignidade de cada pessoa, coloca a base dos seus direitos e deveres fundamentais e, consequentemente, da convivência justa e pacífica entre as pessoas.

Assim o reto uso da liberdade é um ponto central na promoção da justiça e da paz, que exigem a cada um o respeito por si próprio e pelo outro, mesmo possuindo um modo de ser e viver distante do meu. Desta atitude derivam os elementos sem os quais paz e justiça permanecem palavras desprovidas de conteúdo: a confiança recíproca, a capacidade de encetar um diálogo construtivo, a possibilidade do perdão, que muitas vezes se quereria obter mas sente-se dificuldade em conceder, a caridade mútua, a compaixão para com os mais frágeis, e também a prontidão ao sacrifício.

Educar para a justiça

4. No nosso mundo, onde o valor da pessoa, da sua dignidade e dos seus direitos, não obstante as proclamações de intentos, está seriamente ameaçado pela tendência generalizada de recorrer exclusivamente aos critérios da utilidade, do lucro e do ter, é importante não separar das suas raízes transcendentes o conceito de justiça. De fato, a justiça não é uma simples convenção humana, pois o que é justo determina-se originariamente não pela lei positiva, mas pela identidade profunda do ser humano. É a visão integral do homem que impede de cair numa concepção contratualista da justiça e permite abrir também para ela o horizonte da solidariedade e do amor.

Não podemos ignorar que certas correntes da cultura moderna, apoiadas em princípios econômicos racionalistas e individualistas, alienaram das suas raízes transcendentes o conceito de justiça, separando-o da caridade e da solidariedade. Ora « a “cidade do homem” não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. A caridade manifesta sempre, mesmo nas relações humanas, o amor de Deus; dá valor teologal e salvífico a todo o empenho de justiça no mundo ».

"Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados" (Mt 5, 6). Serão saciados, porque têm fome e sede de relações justas com Deus, consigo mesmo, com os seus irmãos e irmãs, com a criação inteira.

Educar para a paz

5. « A paz não é só ausência de guerra, nem se limita a assegurar o equilíbrio das forças adversas. A paz não é possível na terra sem a salvaguarda dos bens das pessoas, a livre comunicação entre os seres humanos, o respeito pela dignidade das pessoas e dos povos e a prática assídua da fraternidade ». A paz é fruto da justiça e efeito da caridade. É, antes de mais nada, dom de Deus. Nós, os cristãos, acreditamos que a nossa verdadeira paz é Cristo: n’Ele, na sua Cruz, Deus reconciliou consigo o mundo e destruiu as barreiras que nos separavam uns dos outros (cf. Ef 2, 14-18); n’Ele, há uma única família reconciliada no amor.

A paz, porém, não é apenas dom a ser recebido, mas obra a ser construída. Para sermos verdadeiramente artífices de paz, devemos educar-nos para a compaixão, a solidariedade, a colaboração, a fraternidade, ser ativos dentro da comunidade e solícitos em despertar as consciências para as questões nacionais e internacionais e para a importância de procurar adequadas modalidades de redistribuição da riqueza, de promoção do crescimento, de cooperação para o desenvolvimento e de resolução dos conflitos.

« Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus » – diz Jesus no sermão da montanha (Mt 5, 9). A paz para todos nasce da justiça de cada um, e ninguém pode subtrair-se a este compromisso essencial de promover a justiça segundo as respectivas competências e responsabilidades. De forma particular convido os jovens, que conservam viva a tensão pelos ideais, a procurarem com paciência e tenacidade a justiça e a paz e a cultivarem o gosto pelo que é justo e verdadeiro, mesmo quando isso lhes possa exigir sacrifícios e obrigue a caminhar contracorrente.

Levantar os olhos para Deus

6. Perante o árduo desafi o de percorrer os caminhos da justiça e da paz, podemos ser tentados a interrogar-nos como o salmista: « Levanto os olhos para os montes, de onde me virá o auxílio? » (Sal 121, 1). A todos, particularmente aos jovens, quero bradar: « Não são as ideologias que salvam o mundo, mas unicamente o voltar-se para o Deus vivo, que é o nosso criador, o garante da nossa liberdade, o garante do que é deveras bom e verdadeiro (…), o voltar-se sem reservas para Deus, que é a medida do que é justo e, ao mesmo tempo, é o amor eterno. E que mais nos poderia salvar senão o amor? ».

O amor rejubila com a verdade, é a força que torna capaz de comprometer-se pela verdade, pela justiça, pela paz, porque tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta (cf. 1 Cor 13, 1-13).

Queridos jovens, vós sois um dom precioso para a sociedade. Diante das dificuldades, não vos deixeis invadir pelo desânimo nem vos abandoneis a falsas soluções, que frequentemente se apresentam como o caminho mais fácil para superar os problemas. Não tenhais medo de vos empenhar, de enfrentar a fadiga e o sacrifício, de optar por caminhos que requerem fidelidade e constância, humildade e dedicação. Vivei com confiança a vossa juventude e os anseios profundos que sentis de felicidade, verdade, beleza e amor verdadeiro. Vivei intensamente esta fase da vida, tão rica e cheia de entusiasmo.

Sabei que vós mesmos servis de exemplo e estímulo para os adultos, e tanto mais o sereis quanto mais vos esforçardes por superar as injustiças e a corrupção, quanto mais desejardes um futuro melhor e vos comprometerdes a construí-lo. Cientes das vossas potencialidades, nunca vos fecheis em vós próprios, mas trabalhai por um futuro mais luminoso para todos. Nunca vos sintais sozinhos! A Igreja confia em vós, acompanha-vos, encoraja-vos e deseja oferecer-vos o que tem de mais precioso: a possibilidade de levantar os olhos para Deus, de encontrar Jesus Cristo – Ele que é a justiça e a paz.

Oh vós todos, homens e mulheres, que tendes a peito a causa da paz! Esta não é um bem já alcançado mas uma meta, à qual todos e cada um deve aspirar. Olhemos, pois, o futuro com maior esperança, encorajemo-nos mutuamente ao longo do nosso caminho, trabalhemos para dar ao nosso mundo um rosto mais humano e fraterno e sintamo-nos unidos na responsabilidade que temos para com as jovens gerações, presentes e futuras, nomeadamente quanto à sua educação para se tornarem pacíficas e pacificadoras! Apoiado em tal certeza, envio-vos estas reflexões que se fazem apelo: Unamos as nossas forças espirituais, morais e materiais, a fim de « educar os jovens para a justiça e a paz ».

Vaticano, 8 de dezembro de 2011

Angelus de Bento XVI - 01/01/12

 





ANGELUS
Praça de São Pedro - Vaticano
Domingo, 01 de janeiro de 2012





Na liturgia deste primeiro dia do ano ressoa a tríplice benção bíblica: “Te abençoe o Senhor e te guarde. O Senhor faça resplandecer para ti a sua face e te dê a graça. O Senhor volte para ti a sua face e te conceda a paz” (Num 6, 24-26). A face de Deus nós podemos contemplar, ela se fez visível, se revelou em Jesus: Ele é a imagem visível de Deus invisível. E este obrigado também à Virgem Maria, da qual hoje celebramos o maior título, aquele com o qual participa de modo único na história da salvação: ser Mãe de Deus. No seu ventre o Filho do Altíssimo assumiu a nossa carne e nós podemos contemplar a sua glória (cfr Jo 1, 14), sentir a presença de Deus conosco.
Iniciamos assim o novo ano de 2012 fixando o olhar sobre a Face de Deus que se revela no menino de Belém e sobre a sua Mãe Maria, que acolheu com humilde abandono o desígnio divino. Graças ao seu generoso 'sim' apareceu no mundo a luz verdadeira que ilumina cada homem e nos foi reaberta a via da Paz.
Caros irmãos e irmãs, como é de feliz costume, celebramos hoje o 45º Dia Mundial da Paz. Na mensagem que enderecei aos chefes de Estado, aos representantes das nações e a todos os homens de boa vontade, que tem como tema “Educar os jovens à justiça e à paz”, quis enfatizar a necessidade a urgência de oferecer às novas gerações adequados percursos educativos para uma formação integral da pessoa, inclusa a dimensão moral e espiritual (cfr 3). Quis sublinhar, em particular, a importância de educar aos valores da justiça e da paz.

Os jovens olham hoje com uma certa apreenssão para o futuro manifestando aspectos da vida deles que merecem atenção, como o desejo de receber uma formação que os prepare em modo mais profundo para enfrentar a realidade, a dificuldade de formar uma família e a encontrar um local estável de trabalho, a efetiva capacidade de contribuir no mundo da política, da cultura e da economia para a construção de uma sociedade que possua um rosto mais humano e solidário.

Convido todos a ter paciência e a constância na procura da justiça e da paz, de cultivar o gosto por aquilo que é reto e verdadeiro. A paz não é um bem alcançado plenamente, mas uma meta a qual todos devemos aspirar e para a qual todos devemos trabalhar.
Rezemos para que, apesar das dificuldades que tornam árduo o caminho, esta profunda aspiração se traduza em gestos concretos de reconciliação, de justiça e de paz. Rezemos também para que os responsáveis das nações renovem a disponibilidade e o empenho de acolher e favorecer este desejo profundo da humanidade. Confiamos estas aspirações à intercessão da Mãe do Rei da Paz, a fim que o ano que inicia seja um tempo de esperança e de pacífica convivência para o mundo inteiro.
Ao final do Angelus, o Papa se dirgiu aos peregrinos de Língua Portuguesa:
Aos peregrinos de língua portuguesa, às suas famílias e nações, desejo um Ano Novo feliz e santo, na paz de Cristo!

Homilia de Bento XVI / Solenidade Maria Mãe de Deus 01/01/12

 





HOMILIA
Santa Missa na Solenidade de Maria Mãe de Deus
Dia Mundial da Paz
Basílica de São Pedro - Vaticano
Domingo, 01 de janeiro de 2012



No primeiro dia do ano, a liturgia faz ressoar em toda a Igreja espalhada pelo mundo, uma antiga benção sacerdotal, que escutamos na primeira leitura. “O Senhor te abençoe e te guarde. O Senhor faça resplandecer para ti a sua face e te dê a graça. O Senhor volte para ti o seu rosto e te conceda a paz” (Nm 6, 24-26). Essa benção foi confiada por Deus através de Moisés, a Araão e aos seus filhos, isto é, aos sacerdotes do povo de Israel. È um triplice desejo pleno de paz, que promana da repetição do nome de Deus, do Senhor e da imagem do seu rosto. De fato, para sermos abençoados precisamos estar na presença de Deus, receber sobre nós o seu Nome e permanecer no raio de luz que parte do seu rosto, no espaço iluminado pelo seu olhar, que difunde graça e paz.

Essa é a experiência feita pelos pastores de Belém, que aparecem ainda no Evangelho de hoje. Eles fizeram a experiência de estar na presença de Deus e da sua benção, não na sala de um majestoso palácio, na presença de um grande soberano, mas sim em um estábulo, diante de um menino colocado em uma manjedoura. Exatamente daquele Menino irradia uma nova luz, que resplandece no escuro da noite, como podemos ver em tantas pinturas que reproduzem a natividade de Cristo. É dEle que vem a benção: do seu nome – Jesus, que significa 'Deus Salva' - e do seu rosto humano, no qual Deus, o Onipotente Senhor do céu e da terra quis encarnar-se, esconder a sua glória sob o véu da nossa carne, para revelar-nos plenamente a sua bondade

A primeira a ser preenchida por essa benção foi Maria, a Virgem, esposa de José, que Deus escolheu desde o primeiro instante da sua existência para ser a mãe do seu Filho feito homem. Ela é a bendita entre as mulheres (Lc 1,42) – como a saúda Santa isabel. Toda a sua vida está na luz do Senhor, no raio da ação do nome e do rosto de Deus encarnado em Jesus, o fruto bendito do seu ventre. Assim a apresenta o Evangelho de Lucas: toda disposta a guardar e meditar no seu coração todas as coisas referentes ao seu filho Jesus (cfr Lc 2, 19.51). O mistério da sua divina maternidade, que hoje celebramos, contém em medida superabundante aquele dom da graça que toda maternidade humana traz em si, tanto que a fecundidade do ventre sempre foi associada à benção de Deus. A Mãe de Deus é a primeira abençoada e é Ela que traz a benção, é a mulher que acolheu Jesus em si e o deu à luz para toda a a família humana. Como reza a Liturgia: “sempre intacta na sua glória virginal, irradiou sobre o mundo a luz eterna, Jesus Cristo nosso Senhor” (Prefácio da Beata Virgem maria 1)

Maria é mãe e modelo da Igreja, que acolhe na fé a divina Palavra e se oferece a Deus como “terra boa” na qual Ele pode continuar a cumprir o seu mistério de salvação. Também a Igreja participa ao mistério da divina maternidade mediante a pregação, que espalha no mundo a semente do Evangelho e mediante os Sacramentos que comunicam aos homem a graça e a vida divina. Em particular no sacramento do Batismo, a Igreja vive essa maternidade, quando gera os filhos de Deus da água e do Espírito Santo, o qual em cada um exclama: “Abbá! Pai! (Gal 4,6). Como Maria, a Igreja é mediadora da benção de Deus para o mundo: a recebe acolhendo Jesus e a transmite levando Jesus. É Ele a misericórdia e a paz que o mundo por si não pode dar-se e da qual tem necessidade sempre, como ou mais que o pão.

Caros amigos, a paz, no seu sentido pleno e mais alto é a soma e a síntese de todas as bençãos. Por isto, quando duas pessoas amigas se encontram, se saúdam desejando reciprocamente a paz. Também a Igreja, no primeiro dia do ano invoca de modo especial esse bem supremo e o faz, como a Virgem Maria, mostrando a todos Jesus, porque como afirma o apóstolo Paulo, “Ele é a nossa paz” (Ef 2, 14) e ao mesmo tempo é a via através da qual os homens e os povos podem alcançar essa meta, a qual todos aspiramos. Levando, portanto, no coração este profundo desejo, tenho o prazer de acolher e saudar todos vocês, que no dia em que se celebra a XLV Jornada Mundial da Paz vieram à Basílica de São Pedro: os Senhor Cardeais, os embaixadores de tantos países amigos, que mais que nunca nesta ocasião, partilham comigo e com a Santa Sé a vontade de renovar o empenho pela promoção da paz no mundo; O presidente do Pontifício Conselho da Justiça e da Paz, que com o secretário e os colaboradores trabalham em modo especial por esta finalidade; os outros prelados e autoridades presentes; os representantes de Associações e Movimentos eclesiais e todos vós, irmãos e irmãs, em particular aqueles que entre vós trabalham no campo da educação dos jovens. De fato – como sabeis – a prospectiva educativa é aquela que enfatizei na minha mensagem deste ano.

“Educar os jovens à justiça e à paz” é objetivo que compreende todas as gerações, e graças a Deus, a família humana, depois das tragédias das duas grandes guerras mundiais, mostrou-se cada vez mais consciente, como atestam, de uma parte, declarações de iniciativas internacionais, e de outra, a afirmação dos próprios jovens, nas últimas décadas, de tantas e diversas formas de empenho social neste campo. Para a comunidade eclesial educar à paz faz parte da missão recebida de Cristo, faz parte integrante da evangelização porque o Evangelho de Cristo também é Evangelho de Justiça e Paz. Mas a Igreja, nos últimos tempos, se fez intérprete de uma exigência que envolve todas as consciências mais sensíveis e responsáveis pelo futuro da humanidade: a exigência de responder a um desafio decisivo que é o desafio educativo. Por que “desafio”? Pelo menos por dois motivos: em primeiro lugar, porque na era atual, fortemente caracterizada pela mentalidade tecnológica, querer educar e não somente instruir é uma escolha; em segundo lugar, porque a cultura relativista coloca uma questão radical: tem sentido ainda educar? Educar para quê?

Naturalmente não podemos ir de encontro a essas questões a fundo, as quais procurei responder em outras ocasiões. Gostaria ao invés disso, destacar que, diante das sombras que hoje obscuram o horizonte no mundo, assumir a responsabilidade de educar os jovens à consciência da verdade, aos valores fundamentais da existência, às virtudes intelectuais, teologais e morais, significa olhar para a futuro com esperança. Nesse empenho por uma educação integral, entra também a formação à justiça e à paz. Os rapazes e moças de hoje crescem em um mundo que se tornou, por assim dizer, mais pequeno, onde os contatos entre as diferentes culturas e tradições, mesmo que muitas vezes não de forma direta, são constantes. Para eles, hoje, mais que nunca, é indispensável aprender o valor e o método da convivência pacífica, do respeito recíproco, do diálogo e da compreensão. Os jovens são por natureza abertos a essas atitudes, mas exatamente a realidade social na qual crescem podem levá-los a pensar e a agir em modo oposto, de modo intolerante e violento.
Somente uma sólida educação da consciência deles pode coloca-los à parte desses riscos e torná-los capazes de lutar sempre e contando somente com a força da verdade e do bem. Essa educação parte da família e se desenvolve na escola e nas outras experiências formativas. Se trata essencialmente de ajudar as crianças, os jovens, os adolescentes, a desenvolver uma personalidade que una um profundo sentido de justiça com o respeito do outro, com a capacidade de enfrentar os conflitos sem prepotência, com a força interior de testemunhar o bem também quando custa sacrifício, com o perdão e a reconciliação. Assim poderão tornar homens e mulheres verdadeiramente pacíficos e construtores da paz.

Nesta obra educativa voltada para as novas gerações, uma responsabilidade particular cabe também às comunidades religiosas. Todo itinerário de autêntica formação religiosa acompanha a pessoa, desde os primeiros anos de idade, a conhecer Deus, a amar e a fazer a sua vontade. Deus é amor, é justo e pacífico, e quem quer honrá-lo deve antes de mais nada comportar-se como um filho que segue o exemplo do Pai. Um Salmo afirma: “O Senhor cumpre coisas justas, defende os direitos de todos os oprimidos...Misericordioso e piedoso é o Senhor, lento para a ira e grande no amor” (Sal 103, 6.8). Em Deus justiça e misericórdia convivem perfeitamente, como Jesus nos demonstrou com o testemunho da sua vida. Em Jesus 'amor e verdade' se encontraram, 'justiça e paz' se uniram (cfr Sal 85, 12.13). Deus nos falou no seu Filho Jesus. Escutamos o que diz Deus: 'Ele anuncia a paz' (Sal 85,9). Jesus é uma via praticável, aberta a todos. É a via da paz. Hoje a Virgem Maria nos indica isso, nos mostra a Via: a sigamos! E vós, santa Mãe de Deus, acompanha-nos com a vossa proteção. Amém.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus


    
Clique no slide!1. Nós Te acolhemos, de braços abertos, ano novo de 2012! Nós Te saudamos, cheios de esperança e de confiança no Senhor, que irrompeu da Sua Eternidade, para abraçar o tempo e a história, e nos redimir, com o seu amor! Sem boas previsões à vista, sem seguranças certas, nem certezas que nos tranquilizem, nós Te recebemos, novo ano de 2012, com a esperança frágil da Virgem Mãe, que embala no seu regaço, o Deus Menino, acabado de nascer! Nós Te acolhemos e Te aguardamos, «mais do que as sentinelas pela aurora» (Sal.130,6)! Porque não perdemos mais tempo a esperar pelo tempo! Nós apenas esperamos, pelo Senhor, porque é no Senhor que está a misericórdia! E com Ele nos vêm a luz e a salvação!
2. É bem verdade que, no ano que termina, cresceu o sentimento de frustração por causa do agudizar da crise! Quase parece que um manto de escuridão teria descido sobre o nosso tempo, impedindo-nos de ver com clareza a luz do dia! Mas, nesta escuridão, o coração do homem, «não cessa de aguardar pela aurora» (cf. Salmo 130,6)! Esta expectativa mostra-se-nos hoje particularmente viva e visível nos jovens. As preocupações manifestadas por muitos jovens, no último ano, em várias regiões do mundo, como se viu, por exemplo, na chamada “primavera árabe”, exprimem o desejo de poder olhar para o futuro com fundada esperança. E, por isso, neste Dia Mundial da Paz, o pensamento do Papa, volta-se para os jovens, considerando o contributo que eles podem e devem oferecer à sociedade, com o seu entusiasmo e idealismo! Mas para isso, - adverte o Papa - é necessário, que sejam conduzidos, para fora de si mesmos, guiados por testemunhas autênticas, que encarnem, na própria vida, o caminho que propõem, pautado por valores, como o respeito pela vida, a procura humilde da verdade, o uso reto e correto da liberdade, o exercício da justiça, que não se move apenas por relações de direitos e deveres, mas também e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. A paz não é apenas dom a ser recebido, mas obra a ser construída, com fidelidade, constância, paciência, tenacidade, humildade e sacrifício, exigindo mesmo aos jovens a ousadia de caminhar em contracorrente.
3. Nesta urgência educativa, o Papa destaca a primária responsabilidade da família, sem ignorar as suas dificuldades: “Condições de trabalho frequentemente pouco compatíveis com as responsabilidades familiares, preocupações com o futuro, ritmos frenéticos de vida, emigração à procura dum adequado sustento, se não mesmo da pura sobrevivência, acabam por tornar difícil a possibilidade de assegurar aos filhos um dos bens mais preciosos: a presença dos pais”. Neste contexto, o Papa deixa palavras de alento: “Queridos pais: Não desanimeis! Com o exemplo da vossa vida, ajudai os vossos filhos a colocar a esperança, antes de tudo em Deus, o único de quem surgem justiça e paz autênticas”.
4. Na verdade, é árduo o desafio de percorrer os caminhos da justiça e da paz, um bem nunca alcançado, uma meta sempre a aspirar! Podemos interrogar-nos como o salmista: «Levanto os meus olhos para os montes, de onde me virá o auxílio?» (Sal 121, 1).Não virá certamente das ideologias do poder! O próprio responde: «o nosso auxílio vem do Senhor, que fez o céu e a terra», que fez descer o céu à terra! Permiti-me, por isso, que vo-lo diga: voltemo-nos para o Deus vivo, nosso Criador e Redentor! Só Ele é o amor eterno; só Ele nos dá a medida do que é justo; só Ele é a fonte da nossa liberdade; só Ele, o garante do que é bom e verdadeiro!
5. Maria, a Mãe de Deus, oferece-nos o frágil Menino, como nossa única esperança! Cheios de confiança, poderemos então rezar-lhe no início de um novo ano: “Tu, Deus da eternidade, Senhor do tempo e da história, és a nossa esperança certa; não permitais que jamais sejamos confundidos! Senhor, só a Ti e só em Ti esperamos, hoje e sempre. Pois só de Ti, nos vêm a salvação e a paz para todos os homens. Amém”!´

Deus contrapõe-se a qualquer violência



"Sejam detidas as mãos dos violentos", que semeiam a morte e "o Senhor socorra a humanidade ferida por tantos conflitos que ainda hoje ensanguentam o Planeta". Face a mais um Natal de sangue, que se materializou este ano com particular ferocidade sobretudo na Nigéria, Bento XVI pediu aos fiéis reunidos na segunda-feira, 26 de Dezembro na Praça de São Pedro para a recitação do Angelus, para rezar ainda "mais intensamente" para que no mundo possam por fim reinar "a justiça e a paz".


Também na homilia da noite de Natal o Papa tinha manifestado a sua preocupação face aos horrores e às contradições do mundo, hoje semelhantes às que, na "época pré-cristã" faziam com que os homens temessem que "Deus não fosse totalmente bom, mas pudesse ser também cruel e arbitrário". Preocupações que diminuíram naqueles anos distantes pela "epifania", ou seja, "pela grande luz que nos apareceu: Deus é bondade pura". Ainda hoje, ressaltou o Papa, pessoas "que já não conseguem reconhecer Deus na fé, se interrogam se a última potência que funda e ampara o mundo é verdadeiramente boa, ou se o mal não é tanto poderoso e originário quanto o bem". Com o Natal é-nos dada a certeza "sempre nova e confortadora", quando "aparecem a bondade de Deus... e o seu amor pelos homens". Invocando este amor por todas as populações que ainda hoje sofrem por causa da "supremacia do perseguidor" Bento XVI, na mensagem urbi et orbi, retomou a sua oração ao Salvador para suplicar com "confiança e esperança: Veni ad salvandum nos!".


(© L'Osservatore Romano - 31 de Dezembro de 2011)

“Educar os jovens para a justiça e para a paz é tarefa de todas as gerações "



Assumir a responsabilidade de educar os jovens significa encarar o futuro com esperança. Um empenho que constitui um verdadeiro desafio e inclui naturalmente formar na justiça e na paz. Na homilia da Missa deste primeiro de Janeiro, na basílica de São Pedro, Bento XVI ilustrou brevemente o tema deste quadragésimo quinto Dia Mundial da Paz – “Educar os jovens na justiça e na paz”.


O Santo Padre comentou antes de mais as leituras da Missa, a começar pela primeira, com a antiga bênção sacerdotal, que invoca a luz do rosto de Deus resplandecendo sobre os fiéis, com o dom da paz. De acordo com esta fórmula de bênção – observou – “para ser abençoado, é preciso estar na presença de Deus… permanecer no cone de luz que parte do seu Rosto, no espaço iluminado pelo seu olhar, que difunde graça e paz”.


Mas é precisamente do Menino, Jesus, que contemplamos neste dia ao colo de sua Mãe santíssima, que irradia a luz da bênção divina. É dele que vem a bênção: do seu nome (Jesus, que significa “Deus salva”) e do seu rosto humano. A primeira a ser cumulada desta bênção foi Maria, escolhida por Deus para ser a Mãe do Seu Filho feito homem. Maria é, como diz Isabel na sua saudação, “bendita entre as mulheres”.


“O mistério da sua divina maternidade, que hoje celebramos, contém em medida superabundante aquele dom de graça que comporta toda e qualquer maternidade. A fecundidade do ventre sempre foi associada à bênção de Deus… Maria é mãe e modelo da Igreja, que acolhe na fé a Palavra divina e se oferece a Deus como terra boa na qual Ele pode continuar o seu mistério de salvação”.


Como Maria (prosseguiu o Papa), a Igreja é mediadora da bênção de Deus para o mundo: recebe-a acolhendo Jesus e transmite-a levando Jesus. É Ele a misericórdia e a paz que o mundo por si não pode assegurar-se e de que tem necessidade como pão e mais ainda.


“Caros amigos, a paz, no seu sentido mais pleno e mais elevado, é a soma e a síntese de todas as bênçãos. Quando duas pessoas amigas se encontram, cumprimentam-se desejando-se mutuamente a paz. Também a Igreja, no primeiro dia do ano, invoca de modo especial este dom supremo, e fá-lo, como a Virgem Maria, mostrando a todos Jesus”.


Foi neste contexto, que Bento XVI referiu, na parte final da homilia, o tema deste Dia mundial da paz 2012: “Educar os jovens para a justiça e para a paz é tarefa de todas as gerações e, graças a Deus, a família humana, depois das tragédias das duas grandes guerras mundiais, tem mostrado ter cada vez mais consciência disto mesmo… Para a Comunidade eclesial educar para a paz enquadra-se na missão recebida de Cristo, faz parte integrante da evangelização, porque o Evangelho de Cristo é também o Evangelho da justiça e da paz”.


Bento XVI referiu que “a Igreja nos últimos tempos se tem feito intérprete de uma exigência que envolve todas as consciências mais sensíveis e responsáveis pela sorte da humanidade: a exigência de responder a um desafio decisivo que é precisamente o desafio educativo”.


“perante as sombras que hoje em dia pesam sobre o horizonte do mundo, assumir a responsabilidade de educar os jovens para o conhecimento da verdade, para os valores fundamentais da existência, para as virtudes intelectuais, teologais e morais, significa encarar o futuro com esperança. E neste empenho por uma educação integral, entra também a formação na justiça e na paz”.


Os jovens de hoje crescem num mundo que se tornou, por assim dizer, mais pequeno, onde são constantes os contactos entre as diferentes culturas e gerações. “Hoje mais do que nunca (insistiu o Papa), é indispensável aprender o valor e o método da convivência pacífica, do respeito recíproco, do diálogo e da compreensão”.


“Trata-se essencialmente de ajudar as crianças, os adolescentes, a desenvolver uma personalidade que aliar um profundo sentido da justiça ao respeito do outro, à capacidade de enfrentar os conflitos sem prepotência, com a força interior de testemunhar o bem mesmo quando custa sacrifício, com o perdão e a reconciliação. Poderão assim tornar-se homens e mulheres verdadeiramente pacíficos e construtores de paz”.


Rádio Vaticano

«Salve Santa Mãe santa, que destes à luz o Rei do céu e da terra»



«Salve Santa Mãe santa, que destes à luz o Rei do céu e da terra» (antífona de entrada). Hoje, oitavo dia depois do Natal e primeiro dia do ano, a Igreja dirige-se com esta antiga saudação à Santíssima Virgem Maria, invocando-a enquanto Mãe de Deus. O Filho eterno do Pai tomou n'Ela a nossa carne e tornou-se, através d'Ela «filho de David, filho de Abraão» (Mt 1, 1). Maria é, portanto, a verdadeira Mãe, a Theotokos, a Mãe de Deus! Se Jesus é a Vida, Maria é a Mãe da Vida. Se Jesus é a Esperança, Maria é a Mãe da Esperança. Se Jesus é a Paz, Maria é a Mãe da Paz, a Mãe do Príncipe da Paz. Entrando no novo ano, pedimos a esta Mãe santa que nos abençoe. Peçamos-lhe que nos dê Jesus, a nossa bênção completa, com a qual o Pai abençoou a história de uma vez por todas, fazendo com que se tornasse uma história de salvação. [...] O Menino nascido em Belém é a Palavra eterna do Pai feita carne para nossa Salvação: é «Deus connosco» que traz conSigo o segredo da verdadeira paz. Ele é o Príncipe da Paz (Is 7, 14; 9, 5). [...]

«Salve, Santa Mãe!» [...] O Menino que apertas contra o peito tem um nome querido aos povos da religião bíblica: «Jesus», que significa «Deus salva». Assim Lhe chamava o arcanjo, antes mesmo de que Ele fosse concebido no teu seio (Lc 2, 21). Na face do Messias recém-nascido reconhecemos a face de cada um dos teus filhos ultrajados e explorados. Reconhecemos em especial a face das crianças, seja qual for a sua raça, o país ou a cultura a que pertençam. Para elas, ó Maria, pelo futuro delas, te pedimos que enterneças os corações endurecidos pelo ódio, a fim de que se abram ao amor e de que a vingança ceda finalmente o lugar ao perdão. Ó Mãe, alcança-nos que a verdade desta afirmação – não há paz sem haver justiça e não há justiça sem haver perdão – se imprima no coração de todos. A família humana poderá assim reencontrar a paz verdadeira, que nasce do encontro entre a justiça e a misericórdia. Mãe santa, Mãe do Príncipe da Paz, ajuda-nos! Mãe da humanidade e Rainha da Paz, ora por nós!



João Paulo II, Papa entre 1978 e 2005
Homilia de 01/01/02

Santa Maria, Mãe de Deus


A contemplação do mistério do nascimento do Salvador tem levado o povo cristão não só a dirigir-se à Virgem Santa como a Mãe de Jesus, mas também a reconhecê-la como Mãe de Deus. Essa verdade foi aprofundada e compreendida como pertencendo ao património da fé da Igreja, já desde os primeiros séculos da era cristã, até ser solenemente proclamada pelo Concílio de Éfeso no ano 431. Na primeira comunidade cristã, enquanto cresce entre os discípulos a consciência de que Jesus é o Filho de Deus, resulta sempre mais claro que Maria é a Theotokos, a Mãe de Deus.


Trata-se de um título que não aparece explicitamente nos textos evangélicos, embora eles recordem "a Mãe de Jesus" e afirmem que Ele é Deus (Jo, 20, 28; cf. 5, 18; 10, 30.33). Em todo o caso, Maria é apresentada como Mãe do Emanuel, que significa Deus connosco (cf. Mt. 1, 22-23). Já no século III, como se deduz de um antigo testemunho escrito, os cristãos do Egipto dirigiam-se a Maria com esta oração: "Sob a vossa protecção procuramos refúgio, santa Mãe de Deus: não desprezeis as súplicas de nós, que estamos na prova, e livrai-nos de todo o perigo, ó Virgem gloriosa e bendita" (Da Liturgia das Horas). Neste antigo testemunho a expressão Theotokos, "Mãe de Deus", aparece pela primeira vez de forma explícita. Na mitologia pagã, acontecia com frequência que alguma deusa fosse apresentada como mãe de um deus. Zeus, por exemplo, deus supremo, tinha por mãe a deusa Reia. Esse contesto facilitou talvez, entre os cristãos, o uso do titulo "Theotokos", "Mãe de Deus", para a mãe de Jesus. Contudo, é preciso notar que este titulo não existia, mas foi criado pelos cristãos, para exprimir uma fé que não tinha nada a ver com a mitologia pagã, a fé na concepção virginal, no seio de Maria, d'Aquele que desde sempre era o Verbo eterno de Deus.






No século IV, o termo Theotokos é já de uso frequente no Oriente e no Ocidente. A piedade e a teologia fazem referência, de modo cada vez mais frequente, a esse termo, já entrado no património de fé da Igreja. Compreende-se, por isso, o grande movimento de protesto, que se manifestou no século V, quando Nestório pôs em dúvida a legitimidade do título "Mãe de Deus".


Ele, de facto, propenso a considerar Maria somente como mãe do homem Jesus, afirmava que só era doutrinalmente correcta a expressão "Mãe de Cristo". Nestório era induzido a este erro pela sua dificuldade em admitir a unidade da pessoa de Cristo, e pela interpretação errónea da distinção entre as duas naturezas - divina e humana - presentes n'Ele. O Concílio de Éfeso, no ano 431, condenou as suas teses e, afirmando a subsistência da natureza divina e da natureza humana na única pessoa do Filho, proclamou Maria Mãe de Deus.


As dificuldades e as objecções apresentadas por Nestório oferecem-nos agora a ocasião para algumas reflexões úteis, a fim de compreendermos e interpretarmos de modo correcto esse título. A expressão Theotokos, que literalmente significa "aquela que gerou Deus", à primeira vista pode resultar surpreendente; suscita, com efeito, a questão sobre como é possível que uma criatura humana gere Deus.
A resposta da fé da Igreja é clara: a maternidade divina de Maria refere-se só à geração humana do Filho de Deus e não à sua geração divina. O Filho de Deus foi desde sempre gerado por Deus Pai e é-lhe consubstancial. Nesta geração eterna Maria não desempenha, evidentemente, nenhum papel. O Filho de Deus, porém, há dois mil anos, assumiu a nossa natureza humana e foi então concebido e dado à luz por Maria. Proclamando Maria "Mãe de Deus", a Igreja quer, portanto, afirmar que ela é a "Mãe do Verbo encarnado, que é Deus". Por isso, a sua maternidade não se refere a toda a Trindade, mas unicamente à segunda pessoa, ao Filho que, ao encarnar-se, assumiu dela a natureza humana. A maternidade é relação entre pessoa e pessoa: uma mãe não é mãe apenas do corpo ou da criatura física saída do seu seio, mas da pessoa que ela gera. Maria, portanto, tendo gerado segundo a natureza humana a pessoa de Jesus, que é pessoa divina, é Mãe de Deus.


Ao proclamar Maria "Mãe de Deus", a Igreja professa com uma única expressão a sua fé acerca do Filho e da Mãe. Esta união emerge já no Concílio de Éfeso; com a definição da maternidade divina de Maria, os Padres queriam evidenciar a sua fé na divindade de Cristo. Não obstante as objecções, antigas e recentes, acerca da oportunidade de atribuir este título a Maria, os cristãos de todos os tempos, interpretando correctamente o significado dessa maternidade, tornaram-no uma expressão privilegiada da sua fé na divindade de Cristo e do seu amor para com a Virgem. Na Theotokos a Igreja, por um lado, reconhece a garantia da realidade da Encarnação, porque - como afirma Santo Agostinho - "se a mãe fosse fictícia, seria fictícia também a carne... fictícias seriam as cicatrizes da ressurreição" (Tracto. in Ev. Ioannis, 8, 6-7). E, por outro, ela contempla com admiração e celebra com veneração a imensa grandeza conferida a Maria por Aquele que quis ser seu filho.


A expressão "Mãe de Deus" remete ao Verbo de Deus que, na Encarnação, assumiu a humildade da condição humana, para elevar o homem à filiação divina. Mas esse título, à luz da dignidade sublime conferida à Virgem de Nazaré, proclama, também, a nobreza da mulher e a sua altíssima vocação. Com efeito, Deus trata Maria como pessoa livre e responsável, e não realiza a Encarnação de seu Filho senão depois de ter obtido o seu consentimento. Seguindo o exemplo dos antigos cristãos do Egipto, os fiéis entregam-se Àquela que, sendo Mãe de Deus, pode obter do divino Filho as graças da libertação dos perigos e da salvação eterna.