Bem Vindo ao Blog da Paróquia de Vila da Ponte -Arciprestado de Sernancelhe - Diocese de Lamego

"A opção fundamental da Vida de um Cristão é acreditar no Amor de Deus" Bento XVI
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quarta-feira, 4 de julho de 2012

VIDA COM DEDICATÓRIA


1. Domingo IV da Páscoa. Domingo do Bom, Belo, Perfeito e Verdadeiro Pastor. É este o significado largo do adjectivo grego kalós e do hebraico tôb, que que qualifica o nome Pastor. 49.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, que o Papa Bento XVI quis este ano subordinar ao tema «As vocações, dom do amor de Deus».
2. O Evangelho que marca o ritmo deste Dia Grande é João 10,11-18, que surge enquadrado na Festa judaica anual da Dedicação do Templo (ver João 10,22). Situemo-nos. O selêucida Antíoco IV Epifânio tinha profanado o Templo de Jerusalém, introduzindo lá cultos pagãos. Contra esta helenização e paganização do judaísmo lutaram os Macabeus, e, em164 a.C., Judas Macabeu procedeu à Purificação do Templo e à sua Dedicação ao Deus Vivo. É este importante acontecimento que deve ser celebrado todos os anos, durante oito dias, com a Festa da Dedicação, a partir do dia 25 do mês de Kisleu, que, no ano em curso de 2012, corresponde ao nosso dia 9 de Dezembro.
3. A Festa da Dedicação, em hebraico hanûkkah, celebra-se durante oito dias, e tem como símbolo o candelabro de oito braços. Relata o Talmud que, quando os judeus fiéis entraram no Templo profanado pelos pagãos helenistas, encontraram uma única âmbula de azeite puro (kasher) de oliveira para reacender o candelabro de sete braços, em hebraico menôrah, que é um dos símbolos de Israel, e que deve arder diante do Deus Vivo. Todavia, uma âmbula de azeite duraria apenas um dia, e eram precisos oito dias para preparar novo azeite puro. Pois bem, o azeite daquela única âmbula durou milagrosamente oito dias! Daí que, na Festa da Dedicação, se acenda um candelabro de oito braços, chamado hanûkkiah. Mas acende-se apenas uma luz por dia, depois do pôr-do-sol, aumentando progressivamente até estarem acesas as oito luzes. Além disso, e ao contrário das luzes da menôrah e do Sábado, que alumiam o interior do Santuário e da casa de família respectivamente, as Luzes do candelabro da Dedicação, refere o ritual, devem ser vistas cá fora: devem alumiar o ambiente social, político, comercial e cultural. E também ao contrário das luzes da menôrah e do Sábado, não se acendem todas de uma vez, mas progressivamente uma por dia, porque, quando as condições são adversas (paganismo helenista e escuro), não basta acender uma luz e mantê-la; é preciso aumentar constantemente a luz.
4. Como este simbolismo é importante para os dias de hoje! Está escuro cá dentro e lá fora, o mundo parece descontruir-se, o paganismo é galopante! Mais do que nunca, é preciso, portanto, não apenas manter a luz, mas aumentá-la progressivamente. E está em maravilhosa sintonia com a Luz Grande que deve alumiar este Domingo do Bom e Belo Pastor, que é Jesus, verdadeira Luz do mundo, Dom do Amor de Deus ao nosso coração. Atear esta Luz de Jesus no nosso coração é o segredo maior deste 49.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações.
5. O resto é a força e a beleza da imagem do Bom Pastor, que dá a Vida Eterna às suas ovelhas, que as segura pela mão, que as conhece, enquanto elas escutam a voz do Bom Pastor e o seguem. Maravilhosa Comunhão. Música encantatória.
6. A figura do Pastor Belo e Bom como que salta da página fechada, para surgir em pessoa à nossa frente. Ao dizer «Eu sou», está também, ao mesmo tempo, a dizer «vós sois». Está, portanto, a estabelecer uma relação pessoal de proximidade, confiança e intimidade connosco, bem expressa, de resto, pelos verbos «chamar pelo nome», «conhecer», «ouvir a voz», «dar a vida».
7. Mas esta vida livre, verdadeira, plena e bela, assente na verdade e na confiança, sem mentiras nem imposições nem malabarismos, deixa ver em expresso contraponto o seu oposto. É que também saltam da página os ladrões, os salteadores, os mercenários, que, em vez de conjugarem os verbos acima indicados para traduzir a relação do Pastor Belo e Bom com o seu rebanho, conjugam antes os verbos «roubar», «matar», «destruir», «abandonar», «fugir». Como esta página antiga e sempre nova de João 10,11-18 lê e desvenda os tempos de hoje!
8. Mas o texto grandioso de João 10,11-18 passa também mensagens intemporais que, em cada tempo e lugar, devem interpelar a comunidade cristã. Assim, quando Jesus diz: «Eu sou a porta», não está a usar uma linguagem da ordem da arquitectura e da carpintaria. É de uma porta pessoal que se trata. E esta porta pessoal tem um nome e um rosto: Jesus de Nazaré, Jesus de Deus. E esta porta serve para «entrar e sair». «Entrar e sair» é um merisma [= figura literária que diz o todo acostando duas extremidades] que traduz a nossa vida toda. É a nossa vida toda sempre em referência a Jesus Cristo. Entende-se, não com a actual criação industrial de gado, em que os animais estão quase sempre em clausura e o pasto lhes é fornecido em manjedouras apropriadas, visando sempre uma maior produtividade, mas com os «apriscos» [= mais abrir do que fechar, como indica o étimo «aprire»] antigos, em que os animais se recolhiam apenas para se protegerem do frio da noite e dos assaltos das feras ou dos ladrões, e procuravam fora o seu alimento, sempre conduzidos pelo pastor.
9. Note-se ainda que os Evangelhos falam sempre de rebanho, e não de ovelhas separadas. Quando falam de uma ovelha sozinha, é para descrever a situação negativa de uma ovelha desgarrada ou perdida, que se perdeu do rebanho ou da comunidade, e deixou de seguir o pastor e de ouvir a sua voz. Note-se também que as ovelhas «entram pela porta», mas não é para ficarem descansadas e recolhidas, fechadas sobre si mesmas. É para sair, pois é fora que encontrarão pastagem. Lição para a comunidade dos discípulos de Jesus de hoje e de sempre: o trabalho belo que nos alimenta e nos mantém saudáveis espera-nos lá fora! Que Deus nos dê então sempre um grande apetite!
10. Concede-nos, Senhor, Belo e Bom Pastor, que nunca nos tresmalhemos do teu imenso amor, e que saibamos sempre levar o tom e o sabor da tua voz que chama e ama a cada irmão perdido em casa ou numa estrada de lama.
António Couto

in: http://mesadepalavras.wordpress.com/
foto: Santa Missa em Vila da Ponte, 29 de Abril de 2012, Domingo do Bom Pastor

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Um retrato da Diocese de Lamego

A Diocese de Lamego, cuja fundação, na referência mais remota, é assinalada no ano de 570, pertence maioritariamente ao distrito de Viseu, integra atualmente 14 concelhos (dois destes concelhos pertencem ao distrito da Guarda) e distribui-se por 223 paróquias da margem a sul do Douro, numa área de aproximadamente 2.900 Km2, entre as confluências dos rios Douro, Coa e Paiva. O espaço diocesano integra grande parte da região do Douro, património da humanidade, sendo a agricultura e a vitivinicultura as atividades predominantes.
Num estudo comparativo, com base nos resultados disponibilizados pelos Censos de 2001 e 2011, verificamos que a população total da Diocese diminuiu acima dos 10% na última década, contando atualmente com 134 722 recenseados. A densidade populacional distribui-se entre os concelhos de Lamego (26 691) e Penedono (2952), as freguesias de Almacave (8770) e de Bigorne (46), sendo que 12 paróquias (5%) têm menos de 100 pessoas residentes e 145 paróquias (65%) contam com menos de 500 recenseados. Esta realidade tem vindo a avolumar as dificuldades que emergem da falta de população nas comunidades paroquiais, ao mesmo tempo que proporciona oportunidades mais favoráveis à ação pastoral centrada na pessoa. A faixa etária dominante é a dos 25-64 anos, seguindo-se a dos 65 e mais anos. A análise das mudanças ocorridas nos últimos 10 anos permite-nos verificar que o número de edifícios e alojamentos aumentou no espaço diocesano, enquanto o número de famílias diminuiu. 
A reorganização da rede escolar conduziu à extinção de inúmeras escolas do 1.º ciclo, situadas em quase todas as freguesias, e à criação de centros escolares, que em alguns casos tendem a vir a acolher toda a população estudantil do concelho. No contexto desta realidade, tem-se refletido sobre a oportunidade da formação catequética avançar para modelos supraparoquiais. Atendendo ao elevado interesse das crianças e adolescentes em frequentar a catequese, confrontados com as dificuldades em formar grupos com número razoável, assim como a dificuldade de dispor de agentes preparados para esta missão, tem-se concluído sobre a conveniência da criação de estruturas arciprestais que proporcionem uma resposta qualitativamente mais adequada.
Encontram-se incardinados na Diocese de Lamego 149 sacerdotes. Destes 102 exercem como párocos, 21 encontram-se fora do espaço diocesano, 13 estão jubilados mas ainda com alguma atividade pastoral, 5 estão jubilados sem que exerçam qualquer atividade pastoral, 5 servem nos seminários diocesanos e 3 estão afetos aos serviços diocesanos. Dos 110 sacerdotes que exercem como párocos, cerca de 38% tem entre 25 e 45 anos, 35% tem entre 46 e 65 anos e 27% tem entre 66 e 87 anos. Existem na diocese 10 equipas sacerdotais in solidum, enquanto 7 sacerdotes lecionam no Instituto Superior de Teologia – Viseu, 23 sacerdotes lecionam EMRC e 10 sacerdotes lecionam noutras áreas do saber. Nos últimos 10 anos foram ordenados 28 sacerdotes diocesanos. Estão incardinados na diocese 2 diáconos permanentes, sendo que um deles está atualmente ao serviço da diocese de Aveiro. No Seminário Menor encontram-se 17 seminaristas e no Seminário Maior 10 seminaristas e um diácono em ordem ao presbiterado. Relativamente às estruturas físicas de apoio, cerca de 29% das 223 paróquias têm residência paroquial que está habitada, 27% têm residências que foram readaptadas para outras funções de serviço à evangelização, 20% têm residências devolutas e 24% não possuem residência paroquial.
Na Diocese encontram-se 9 institutos religiosos femininos e 2 institutos religiosos masculinos. Nos últimos anos veio a acentuar-se a tendência para o encerramento de alguns destes institutos, apontando-se como razão dominante a necessidade de reorganização interna dos mesmos em virtude do vasto campo de missão e da míngua de vocações. Em sentido contrário tem crescido o número de instituições paroquiais de ação sociocaritativa, contando-se neste momento cerca de 40, na sua maioria centros sociais paroquiais/lares. Estas instituições são uma referência destacada no espaço paroquial e assumem-se como novos polos de dinamismo eclesial. Neste sentido, assinala-se a vitalidade e o empenhamento de vários movimentos de apostolado e evangelização: os Secretariados Diocesanos da infância, da adolescência, da juventude e das vocações, Escuteiros, Convívios Fraternos, Obra Kolping, Ação Católica Rural, Movimento da Mensagem de Fátima, Cursistas, Equipas de Nossa Senhora, Jovens sem Fronteiras, Conferência de S. Vicente de Paulo…
No respeitante à prática sacramental, a análise do número de registo de batismos, de 1980 até ao presente, mostra-nos uma diminuição de cerca de 50%, acompanhando a curva descendente da natalidade, esta em nada beneficiada pelo recente encerramento da única maternidade que existia em todo o espaço diocesano (Hospital de Lamego). A matriz cristã desta diocese faz com que a participação na eucaristia dominical seja bastante significativa, assim como a mobilização para as celebrações litúrgicas anuais e para as celebrações afetas a centros de espiritualidade mariana (Senhora dos Remédios, Senhora da Lapa, Senhora de Cárquere) e de piedade mais popular (Santa Helena, Senhor dos Enfermos, Santa Eufémia, São Domingos…). O estudo dos últimos 10 anos, permite-nos verificar que, em cerca de 40% das 223 paróquias, encontramos uma média igual ou inferior a dois matrimónios por ano, em 32% das paróquias encontramos uma média igual ou inferior a 5 matrimónios por ano e em cerca de 28% das paróquias encontramos uma média superior a 5 matrimónios por ano. Não encontramos variância significativa no número de celebrações fúnebres desde 1980 até ao presente. 
Padre Paulo Alves, Diretor do Centro de Estudos Sócio-pastorais